terça-feira, 11 de outubro de 2011

Pé na estrada...

                            
Ponte da Mulher - Puerto Madero- out.2011
                      
Ainda em Buenos Aires. Mochila nas costas, água mineral, um pacote de biscoito de aveia e o mapa. Acordo cedo e decido aproveitar  o dia em um passeio de barco Circuito Tigre- Delta do Paraná, pois ontem aqui foi feriado. Passeio de barco, San Isidro...Estar sozinha em uma viagem tem uma grande vantagem: saio sozinha, mas a cada momento estou em um grupo. Ouco histórias diferentes, fotografo famílias, dou risadas e almoco em Puerto Madero com uma simpática familia piauiense..tres irmas, uma tia e eu (filha de piauiense).Cinco mulheres.Tomamos o rumo para um Casino. É preciso conhecer e conhecemos...sem sorte nas poucas apostas, mas nos divertimos. Outra vez mapa na mao, sigo em frente sozinha...proxima parada: Universidade Católica da Argentina.

domingo, 9 de outubro de 2011

Hermanos....

Casa Rosada  - Out. 2011
                                                   

 Buenos Aires. Cheguei ontem aqui nas terras argentinas e tento me sentir estrangeira. Viajo ao lado de um também professor universitário...falamos sobre Mestrado, Doutorado, Bach, Fela Kuti, Wittegeinstein...viagem agradável. Aliás, todos  sao agradáveis. Me ajudam com algumas instrucoes (embora os teclados nao tenham instrucao e por isso a falta de acentos!). Dou uma volta no Centro da cidade e só vejo brasileiros, pago as compras em real, sem problemas...mas puxa vida, e  meu espanhol? como vou treinar? um dos objetivos de estar aqui é soltar a língua! Achei que fosse, me sentir como o chinês,  personagem do filme Um Conto chinês. Mas nada disso acontece! eu entendo, eles me entendem e sem vergonha procuro falar algumas coisas em espanhol. Volto de um passeio e vejo um furto! alguns correndo atrás do ladrao, atravessam na frente dos carros, mas o ladrao some na Avenida...definitivamente: hermanos!

terça-feira, 4 de outubro de 2011

Ponto e vírgula


                   

Como lia muito em inglês havia uma séria dúvida de que eu soubesse escrever em português. Comecei no jornalismo trabalhando como copydesk, uma função que já dever ter sido substituída por uma tecla de computador no Zero Hora, de Porto Alegre. Naquele tempo você podia começar como estagiário, sem diploma. Quanto tempo faz isso? Basta dizer que a Manchete do Zero Hora no dia seguinte ao da minha estréia, foi "Castelo hesita em cassar Lacerda". E a manchete saiu com um terrível erro de ortografia. "Exita" em vez de "hesita". Na minha casa duas certezas conflitantes-- a de que eu era analfabeto e a de que já começaria no jornalismo fazendo as manchetes da primeira página-- se chocaram, criando o pânico. Mas eu era inocente. E tenho conseguido me manter inocente de grandes pecados ortográficos e gramaticais desde então, pelo menos se você não for um fanático sintático. Vez que outra um leitor escandalizado me chama a atenção para alguma barbaridade que eu prefiro chamar de informalidade, para não chamar de distração ou ignorância mesmo. Afinal se a gente não pode tomar liberdades com a própria língua... E nenhum pronome fora do lugar justifica a perda de civilidade.
Mas tenho um temor e uma frustração. Jamais usei ponto-e-vírgula. Já usei "outrossim", acho que já usei até "deveras" e vivo cometendo advérbios, mas nunca me animei a usar ponto-e-vírgula. Tenho um respeito reverencial por quem sabe usar ponto - e - vírgula e uma admiração maior ainda por quem não sabe e usa assim mesmo, sabendo que poucos terão autoridade suficiente para desafiá-lo. Além de conhecimento e audácia, me falta convicção: ainda não escrevi um texto que merecesse ponto-e-vírgula. Um dia o escreverei e então tirarei o ponto-e-vírgula do estojo com o maior cuidado e com a devida solenidade o colocarei, assim; provavelmente no lugar errado, mas quem se importará?
                     Luis Fernando Veríssimo

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

  
                                      

O menino que vende velas ilumina as almas na praça, mas não acredita em nada. Desconfia que Deus criou o E, mas o danado do diabo, foi lá e criou o OU. As almas não se preocupam tanto, não. Com explicar que se as almas, de fato, fossem do bem, bastava rezar uma vez e pronto?  Ele pensava isso durante as vendas.  
Lia o livro sobre o Garrincha, encostado em sua barraca de velas.  Livro velho, com orelhas, sujo. Mas ele lia iluminado pelas velas do cruzeiro, em frente à igreja, sem preocupação alguma. Torcia para aquela gente toda comprar muitas velas e o desassossego continuasse, pois só assim teria mais luz  para ler, porque o bairro carecia de infraestrutura.
Uma moça bem vestida, muquirana, ia lá toda segunda-feira, à noitinha. Tinha jeito de muquirana e devia rezar para se casar logo e deixar a vida de mulher independente. Às vezes, ia a pé, mas começou a aparecer ali de carro. O carro parava perto. Não desligava o motor, e ela descia do carro pelo lado do carona. Era o único carro que tinha um adesivo gigante com o escudo do time de futebol do menino. Jamais tinha visto algo igual. O único momento em que fazia sentido acreditar em dias melhores.
Tentou conversar com a muquirana, mas só sabia que o dono do carro era médico e namorado dela.  Sujeito cético, pensou o menino. Na medicina vale a pesquisa, a ciência. Um dia os dois desceram do carro e foram até um restaurante da praça. Quando a moça saiu do carro deixou uma camisa cair no chão e não se deu conta do fato. O menino não perdeu tempo. Correu, pegou a camisa do time e a enfiou no saco de lixo. Quando estava desmontando a barraca e a praça dormia, o menino vestiu a camisa do time e ficou com o olhar longe. Novamente mexeu no saco de lixo e sem querer tocou em um papel que dizia: “Desculpa, mas reza também pela minha paz” . C. Varandas

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

X SEMINÁRIO DE METODOLOGIA DE ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA -

 

A PESQUISA E O ENSINO NO CAMPO DA LINGUAGEM NESTA PRIMEIRA DÉCADA DO MILÊNIO

16, 17 E 18 DE NOVEMBRO DE 2011
FACULDADE DE EDUCAÇÃO
UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO – FE-USP

Este evento pretende retomar os últimos dez anos deste novo milênio com o objetivo de levantar elementos para uma síntese crítica do que se produziu na academia e do que se vem aplicando no cotidiano escolar. Em outras palavras, o SMELP procura situar a área de ensino de língua materna e de linguagens neste contexto discursivo e, ao mesmo tempo, cotejar as relações entre o campo da pesquisa e do ensino em suas mais amplas dimensões.

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Não sabia que era preciso

           Ao contrário do que afirmam os ingénuos (todos o somos uma vez por outra), não basta dizer a verdade. De pouco ela servirá ao trato das pessoas se não for crível, e talvez até devesse ser essa a sua primeira qualidade. A verdade é apenas meio caminho, a outra metade chama-se credibilidade. Por isso há mentiras que passam por verdades, e verdades que são tidas por mentiras.
Esta introdução, pelo seu tom de sermão da quaresma, prometeria uma grave e aguda definição de verdades relativamente absolutas e de mentiras absolutamente relativas. Não é tal. É apenas um modo de me sangrar em saúde, de esquivar acusações, pois, desde já o anuncio, a verdade que trago hoje não é crível. Ora vejamos se isto é história para acreditar.
O caso passa-se num sanatório. Abro um parênteses: o escritor português que escolhesse para tema de um romance a vida de sanatório, talvez não viesse a escrever A Montanha Mágica ou O Pavilhão dos Cancerosos, mas deixaria um documento que nos afastaria da interminável ruminação de dois ou três assuntos erótico-sentimentalo-burgueses. Adiante, porém, que esta crónica não é lugar de torneios ou justas literárias. Aqui só se fala de simplezas quotidianas, pequenos acontecimentos, leves fantasias – e hoje, para variar, de verdades que parecem mentiras. (Verdade, por exemplo, é o doente que entrava para o chuveiro, punha a água a correr, e não se lavava. Durante meses e meses não se lavou. E outras verdades igualmente sujas, rasteiras, monótonas, degradantes.)
Mas vamos à história. Lá no sanatório, dizia-me aquele amigo, havia um doente, homem de uns cinquenta anos, que tinha grande dificuldade em andar. A doença pulmonar de que padecia nada tinha a ver com o sofrimento que lhe arrepanhava a cara toda, nem com os suspiros de dor, nem com os trejeitos do corpo. Um dia até apareceu com duas bengalas toscas, a que se amparava, como um inválido. Mas sempre em ais, em gemidos, a queixar-se dos pés, que aquilo era um martírio, que já não podia aguentar.
O meu amigo deu-lhe o óbvio conselho: mostrasse os pés ao médico, talvez fosse reumatismo. O outro abanava a cabeça, quase a chorar, cheio de dó de si mesmo, como se pedisse colo. Então o meu amigo, que lá tinha suas caladas amarguras e com elas vivia, impacientou-se e foi áspero. A atitude anunciou-lhe que ia mostrá-los ao médico. Mas que antes disso gostaria que o seu bom conselheiro os visse.
E mostrou. As unhas, amarelas, encurvavam-se para baixo, contornavam a cabeça dos dedos e prolongavam-se para dentro, como biqueiras ou dedais córneos. O espectáculo metia nojo, revolvia o estômago. E quando perguntaram a este homem adulto por que não cortava ele as unhas, que o mal era só esse, respondeu: “Não sabia que era preciso.”
As unhas foram cortadas. Cortadas a alicate. Entre elas e cascos de animais a diferença não era grande. No fim das contas (pois não é verdade?), é preciso muito trabalho para manter as diferenças todas, para alargá-las aos poucos, a ver se a gente atinge enfim a humanidade.
Mas de repente acontece uma coisa destas, e vemo-nos diante de um nosso semelhante que não sabe que é preciso defendermo-nos todos os dias da degradação. E neste momento não é em unhas que estou a pensar.
                                             José Saramago. In: A bagagem do viajante