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domingo, 17 de agosto de 2014

Um escrito sobre Mayombe


Tenho  notícias de um amigo que está largado pelas bandas africanas e fico saudosa da literatura angolana. Reviro minha estante e acho dentro do livro Mayombe, autografado pelo Pepetela,  uma resenhazinha escrita em 97. Eu gostava de ler e escrever nas últimas folhas alguma coisa parecida com uma resenha. Eis que temos nos meus escritos:
   O romance Mayombe trata do cotidiano de uma base guerrilheira durante as lutas de libertação de Angola. Mayombe reconta a história de Angola a partir da visão libertadora do MPLA, levando em conta o papel do intelectual como expressão e transformador da própria cultura.
   Cada personagem tem origem étnica diferente, mas o projeto de vencer o colonialismo torna-se comum. Trata-se de um romance polifônico em que as referências do passado e as projeções do futuro remetem à construção da História. Dessa forma, percebe-se a História não como pano de fundo do romance, mas como elemento que o compõe. Cada personagem é sujeito desse processo histórico, salvaguardando as individualidades, o projeto une mas não iguala as personagens. Assim, as diferenças étnicas são respeitadas.
   A obra de Pepetela aprofunda a técnica do multifoco narrativo, rompendo com a imobilidade de um único ponto de vista. Uma indicação de que a verdade não pode ser vista como absoluta. A verdade surge da integração desses pontos que encontram ou se afastam ao mesmo tempo.
   O romance aponta para o fato de que Literatura e História se aproximam constituindo uma unidade importante para a compreensão de uma identidade que se constrói durante a luta pela independência angolana.
       Agora é hora de reler Mayombe!


domingo, 21 de julho de 2013

Humor à portuguesa



 Nem só fado ou Chiado, em Lisboa também tem muito humor inteligente, mesmo depois do discurso do presidente hoje na TV. A peça Grande Revista à Portuguesa é um espetáculo que não deixa escapar nada do que tem acontecido nos últimos tempos nos cercos portugueses e além mar. O belíssimo texto de Filipe Lá Féria tem deixado a portuguesada com o sorriso no rosto e a língua solta. Fala-se da politicalha de cá, do país que não é só fado, dos tabus da igreja católica, das famílias portuguesas, dos muitos angolanos que por aqui estão. Em três horas de espetáculo musical não escaparam o  nosso Lula e os escândalos do governo, o eterno Roberto Leal, Fafá de Belém e até mesmo Daniela Mercury com seu amor de Julieta e Julieta. Todos são alvos de paródias no teatro que completa este ano 100 anos. Vale conhecer o Teatro Politeama, em especial valem as intertextualidades de Lá Féria, que nunca está de férias dos escritos.








domingo, 2 de setembro de 2012

Para Roma com amor

                           

Sempre gostei dos filmes do Woody Allen. Tanto que, no fim dos anos 90,  ganhei de presente uma miniatura do Woody Allen e que até hoje está ao lado do meus escritos, computador, na minha mesa de trabalho. 
Para Roma com Amor não é o melhor de Allen. É um filme leve, mas bem divertido para um domingo. Bom para percebermos que idade não é problema, que Woody está aí, produzindo, pensando, fazendo!
E por isso, já está recomendado!

sábado, 18 de agosto de 2012

As neves do Kilimanjaro

                                        

Esperava  menos do filme de Robert Guediguian, no entanto é muito bom ver gente comum nas  telas especialmente nessa era de corpos sarados, botox, sorrisos plastificados. O filme As neves do Kilimanjaro conta a história de um casal de meia idade que deseja conhecer Kilimanjaro, mas esbarra na situação de aposentadoria ou desemprego, solidariedade familiar e, sobretudo, cumplicidade. O discurso de um homem de meia idade que não sabe o que fazer com sua vida de aposentado e sindicalista aparece como uma reflexão para muitas outras coisas da vida. O simples inteligente, como sempre, eu recomendo.

segunda-feira, 23 de abril de 2012

A tela em movimento

                                            
Pina 3D é um filme que apresenta a obra de Pina Bausch- uma bailarina alemã nada convencional, que revolucionou o mundo da dança. O filme de Win Wenders é para quem gosta de dança. Para quem entende que movimento do corpo é uma arte e coreografia é o eterno desafio da criação. Win Wenders, que era amigo de Pina, utilizou os recursos do cinema 3D para mostar um filme com movimentos também nada convencionais. Há momentos em que não sabemos se estamos no cinema ou no teatro, a tela se confunde com o palco e as plateias se misturam. Sair do convencional sempre tem um preço, no caso de Pina 3D, o preço é olhar para o  corpo, várias vezes, e descobrir o quanto estamos robotizados, sem leveza, sem movimento. Não é fácil. Mas é uma atitude inteligente. 

sábado, 24 de março de 2012

Noam Chomsky - Roda Viva (Brazil)

Qualquer estudioso da linguagem já leu sobre a importâcia de Noam Chomsky, um dos maiores pensadores do século XX,  para os estudos da linguagem. No entanto, muitos desconhecem as reflexões de Chomsky sobre outros temas.  Procurando algo totalmente diferente nesse vasto mundo que é a internet, descobri esta entrevista de Chomsky ao Programa Roda Viva. Já sabia que ele estivera no  Brasil algumas vezes, mas desconhecia esse material. Na entrevista, Chomsky fala sobre mídia, internet, e evidentemente, questões políticas. Vou dispensar qualquer apresentação de Noam  Chomsky por aqui, para que todos cliquem no link e tenham uma boa aula.

                    

domingo, 18 de março de 2012

Cartas a um jovem poeta

                                        

 "(...) Procure entrar em si mesmo. Investigue o motivo que o manda escrever; examine se estende suas raízes pelos recantos mais profundos de sua alma; confesse a si mesmo: morreria, se lhe fosse vedado escrever? Isto acima de tudo: pergunte a si mesmo na hora mais tranqüila de sua noite: "Sou mesmo forçado a escrever?” Escave dentro de si uma resposta profunda. Se for afirmativa, se puder contestar àquela pergunta severa por um forte e simples "sou", então construa a sua vida de acordo com esta necessidade. Sua vida, até em sua hora mais indiferente e anódina, deverá tornar-se o sinal e o testemunho de tal pressão. Aproxime-se então da natureza. Depois procure, como se fosse o primeiro homem, dizer o que vê, vive, ama e perde. (...) Utilize, para se exprimir, as coisas do seu ambiente, as imagens dos seus sonhos e os objetos de sua lembrança. Se a própria existência cotidiana lhe parecer pobre, não a acuse. Acuse a si mesmo, diga consigo que não é bastante poeta para extrair as suas riquezas. Para o criador, com efeito, não há pobreza nem lugar mesquinho e indiferente. Mesmo que se encontrasse numa prisão, cujas paredes impedissem todos os ruídos do mundo de chegar aos seus ouvidos, não lhe ficaria sempre sua infância, esta esplêndida e régia riqueza, esse tesouro de recordações? Volte a atenção para ela. Procure soerguer as sensações submersas deste longínquo passado: sua personalidade há de reforçar-se, sua solidão há de alargar-se e transformar-se numa habitação entre o lusco e fusco diante do qual o ruído dos outros passa longe, sem nela penetrar. Se depois desta volta para dentro, deste ensimesmar-se, brotarem versos, não mais pensará em perguntar seja a quem for se são bons. Nem tão pouco tentará interessar as revistas por esses seus trabalhos, pois há de ver neles sua querida propriedade natural, um pedaço e uma voz de sua vida. Uma obra de arte é boa quando nasceu por necessidade."    http://www.releituras.com/rilke_menu.asp

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

As canções

Escolhi o cinema para retomar as palavras por aqui, porque não há nada melhor do que uma sala de cinema para descansar (?) de um cotidiano miserável que se repete todo ano: fortes chuvas, desabrigados, aumento de preços na primeira semana do ano, BBB (hein?), dinheiro público que vai e vem, mas não fica em lugar algum.
Por isso, o primeiro post do ano vai para As canções, documentário dirigido por  Eduardo Coutinho.
                                       

No documentário, para cada história de amor (histórias que se repetem, diga-se de passagem), há uma música. Ainda que o documentário apresente uma repetição (mais uma repetição?) da figura da mulher abandonada e do homem com final feliz, não só gostei de ouvir as narrativas, bem como cantei as músicas selecionadas, em conjunto com a plateia do cinema, ex-Unibanco Arteplex – atual Espaço Itaú.  
Em especial, destaco a história da Déa, 82 anos, que canta lindamente Último desejo – Noel Rosa
                                                                       
“Nunca mais quero seu beijo   
Mas meu ultimo desejo
Você não pode negar
Se alguma pessoa amiga
Pedir que você lhe diga
Se você me quer ou não
Diga, que você me adora
Que você lamenta e chora
A nossa separação”


A história do Queimado (mais carioca, impossível!) que resgata a mulher da vida dele, depois de ouvir Que nêga é essa, do outro mais carioca, impossível, Jorge Ben.



E a história da corajosa Silvia, que conta os muitos anos de idas e vindas de um amor através da música Retrato em Branco e Preto- Chico Buarque

"Já conheço os passos dessa estrada
 sei que não vai  dar em nada
o seu segredo sei de cor"
  
As narrativas são contadas no palco de um teatro, belas e verdadeiras histórias. É disso que precisamos! É sempre o simples que me encanta.

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Dezembro, um abraço!

Dezembro é o  mês com trânsito intenso a qualquer hora, mês em que há muito calor e muita chuva, restaurantes barulhentos, pessoas impacientes, médicos com agendas lotadas, parece que o brasileiro se organiza como se fosse acontecer uma guerra. Todos os mercados lotados, as casas abastecidas, os presentes embrulhados, as roupas novas... parece que tudo precisa ser organizado antes do ano acabar e por isso é também o mês da arrumação.
Arrumar a casa no fim do ano, significa arrumar as ideias. Talvez seja por isso que todo mês de dezembro eu arrume o que não arrumei o ano todo. Colocar o que nos interessa no lugar certo.
Em uma dessas arrumações, caiu literalmente na minha cabeça, um livro que há anos não sabia onde estava. Trata-se do Livro dos Abraços do escritor uruguaio Eduardo Galeano.
                                  
                                              
Desço a escada que me leva até o alto da estante,  abro o livro e sinto cheiro de lembrança. Mas só depois de alguns minutos vejo a dedicatória:
                "O Livro dos abraços com um abraço bem apertadinho. Sempre"
Isso tudo me fez pensar que embora o mês de dezembro seja sempre um tumulto, certamente é o mês em que recebemos e damos abraços carinhosos em todos: nas pessoas que conhecemos e vemos todos os dias, nas recém chegadas nas nossas vidas, nas que não vemos há tanto tempo, nas que nunca mais veremos novamente...
Não arrumo o livro na estante, ele ainda não tem o lugar certo, é preciso reler. Apenas dou um abraço no livro acreditando que definitivamente Dezembro é o mês do abraço...E assim viro a página de 2011, desejando a todos um abraço bem apertadinho.Sempre.
Cristina

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

A pele que habito

                                                  

   
Assisti ao novo filme do diretor espanhol Almodóvar e acredito que de todos os filmes que assisti este ano, A pele que habito, sem dúvida, é o melhor. Amodovar apresenta a história de um médico, cirurgião plástico, em busca de um “final feliz” para uma história de perdas. Li algumas críticas sobre o filme e cada uma conta o enredo do filme de uma forma diferente. Claro. A pele que habito relaciona várias histórias em uma só e isso é o mais interessante. Uma história se torna interessante pela forma como se conta e quando o roteiro é bom dificilmente o filme é ruim. O contrário pode acontecer: um roteiro ruim dificilmente torna-se um bom filme. Já vi outros filmes do Almodóvar — Abraços Partidos, Volver, Tudo sobre minha mãe e Fale com ela. Mas A pele que habito é o melhor, pela sequência da trama, pela trilha sonora, pelos atores, por Amodovar que teve a precisão de cirurgião. Cortou e deu pontos sem deixar cicatrísticas.
                            

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Livro: o melhor presente


arquivo pessoal Out. 2011

Vejo livrarias por toda parte de Buenos Aires. Vejo também, nos intervalo da programação de uma canal de TV, chamadas com os funcionários das livrarias explicando a história daquela livraria,  por que recomendam a livraria e indicando quais são os autores contemporâneos que se destacam no momento. Ideia simples e inteligente.

domingo, 24 de julho de 2011

Jogo do bicho, literatura e Vila Isabel


Quem nunca teve a curiosidade de saber como se joga no bicho? Quem nunca teve a vontade de dar um palpite feliz?
Há alguns dias fui presenteada pelo amigo Léo Christiano, com o livro O jogo de Deus, do homem e do bicho. Recém lançado, o livro é uma publicação da editora Léo Christiano Editorial em parceria com a Eduerj (editora da Universidade do Estado do Rio de Janeiro).
Além de contar a verdadeira história do surgimento do jogo do bicho, o livro também apresenta parte da belíssima coleção de estampas sobre o jogo do bicho que vinham dentro de maços de cigarros da marca Veado, uma das primeiras a aparecer no final do século XIX.  As imagens são acompanhadas por fábulas, e analisadas por Alexei Bueno. Há curiosas histórias sobre Vila Isabel e trechos da literatura brasileira sobre o jogo do bicho, como esta passagem: “os bichos de Vila Isabel, mansos ou bravios, fazem ganhar dinheiro depressa e sem trabalho” (Machado de Assis). Jogo do bicho, Vila Isabel e literatura. Mistura perfeita. Quem vai querer dar o palpite de hoje?

terça-feira, 19 de julho de 2011

A literatura é o caminho para se ter esperança.

Outro dia, procurando o que ver na TV, parei para assistir a uma entrevista no programa Espaço Memória, na TV Justiça. Fiquei surpresa ao ter ouvido a seguinte frase:

 “A literatura hoje é um ponto de confluência para melhoria de qualquer atividade humana, em especial a atividade de juiz”.
Acompanhei a parte final da entrevista e não sosseguei enquanto não descobri aqui na Internet uma cópia de todo o programa. A frase é do jurista Alberto Silva Franco. Li, ouvi e gostei. Uma verdadeira aula e quem quiser, e eu recomendo, pode assistir ao programa (dividido em três partes) http://youtu.be/jVtjNpwqAK8.  
Em tempos difíceis para ensinar a importância da literatura e acreditar na Justiça, uma fala assim, cai muito bem. Pode acreditar: “a literatura é o caminho para se ter esperança”.  Assista e tire suas próprias conclusões.

domingo, 19 de junho de 2011

Indignai-vos!



Acabei de ler esta semana o livro Indignai-vos! de Stéphane Hessel e recomendo.
Também coautor da Declaração Universal dos Direitos Humanos, Hessel dá uma aula de história e de vida.
Cheguei até a obra por conta de um artigo do Francisco Bosco que li no jornal. No artigo, Bosco aponta para o  fato de que hoje basta ficar indignado com alguma coisa que já estamos no politicamente correto. Também não aguento mais ouvir ou ler todo mundo “revoltadinho” sem fazer nada.
A leitura de Indignai-vos é uma leitura pesada, muitas referências históricas em uma obra curtíssima. Pois é, vale dizer pouco e fazer mais...
                       

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Eu recomendo...


A ideia do "Eu recomendo..." surgiu o ano passado em uma turma do sétimo ano do ensino fundamental. Eu recomendei a leitura do livro Eu não sou macaco (Tradução: Nilma Lacerda) e a turma pediu para que fizéssemos uma mesa-redonda sobre livros escolhidos por eles. Era época da bienal, aqui no Rio, e eu sem vontade de levá-los até o Rio Centro, pois acho a Bienal um tumulto só!. Na verdade não havia planejado nada disso. Mas aconteceu algo muito especial. Eles se organizaram em grupos, deciram apresentar o trabalho no auditório, de forma que aprendemos com o Crespúculo, Harry Porter, Revistinhas de Mangá e com a coleção Fala sério!. Uma troca, um bate-papo, uma aula para mim. Longe de julgar a qualidade das obras, meu papel era apenas ouvir, ter respeito e aprender.
Depois disso, resolvemos fazer um cartaz chamado "Eu recomendo..." cada um seria responsável pela recomendação, sem neurose de ser semanal ou mensal, ou trabalho para nota.Puro prazer!
"Eu recomendo..." durou pouco tempo (porque já estávamos no fim do terceiro bimestre) na escola, mas ficou na minha cabeça. Lembrei disso hoje, voltando de um encontro do Curso de Letras. Ouvi de vários palestrantes que devemos incentivar à leitura de todas as formas! Eu ouço isso desde 1992, quando comecei o Curso de LETRAS. Ouvimos muito, mas infelizmente praticamos pouco e resolvi contar esta história para aprender também a dividir, porque os alunos me ensinam isso todos os dias com muito mais inteligência do que as teorias apresentadas na Universidade.